Em 1990, Globo tentou inovar com Rainha da Sucata e quebrou a cara

Tony Ramos e Regina Duarte em Rainha da Sucata, novela de 1990 que não funcionou como chanchada
Por THELL DE CASTRO, em 07/06/2015 · Atualizado às 11h45

Quando tentou inovar em seu principal horário de novelas, o das oito (atualmente das nove), na maioria das vezes a Globo não se deu bem. São inúmeras as tramas e os mais diversos motivos: Espelho Mágico (1977), que mostrava os bastidores da produção de uma novela e de uma peça de teatro, e Rainha da Sucata (1990), que começou muito puxada no lado humorístico, são dois exemplos históricos.

Rainha da Sucata ainda que conseguiu se recuperar: passou de chanchada a dramalhão e terminou bem. Na novela seguinte, Meu Bem, Meu Mal, a emissora voltou a apostar no modelo tradicional de trama, com mocinhos e vilões bem definidos e muita intriga, paixão e ódio.

Em reportagem de Sônia Apolinário na Folha de S.Paulo de 28 de outubro de 1990, o próprio autor de Meu Bem, Meu Mal, o veterano Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), definia bem a história: “Uma novela tradicional, sem loucurinhas”, galgada no “jeito Janete Clair de ser”. “O público desse horário gosta de coisas mais sérias”, completou.

Gabus Mendes e Silvio de Abreu são considerados até hoje os reis das 19h, com várias tramas que fizeram sucesso no horário, principalmente nos anos 1980.

Abreu, com Rainha da Sucata, em seu primeiro desafio às oito, teve que fazer alterações na estrutura da trama. A partir de junho de 1990, sua novela carregou no drama e viu a audiência crescer de 59 para 63 pontos em São Paulo. Ainda era época de Pantanal na Manchete, mas as duas não concorriam.

A reportagem da Folha também contou que Meu Bem, Meu Mal foi escrita às pressas. A substituta de Rainha da Sucata originalmente seria Araponga, de Dias Gomes, também com muito humor na trama.

A Globo encomendou, basicamente, uma história de amor, que começou a ser feita em agosto de 1990. “Não tive muito tempo para pensar. Vou me basear mais no folhetim e atacar o problema do amor que está meio fora das telas”, disse Gabus Mendes à Folha.

A produção estava atrasada em 20 capítulos e vários papéis de destaque na novela acabaram ficando na mão de jovens atores, na época, em virtude da produção aquecida da própria Globo, Manchete e SBT.

“Foi por causa da escassez de atores que alguns personagens-chave ficaram na mão de iniciantes, como Adriana Esteves (Patrícia), Lisandra Souto (Jessica) e Fábio Assunção (Marco Antônio)”, informou a Folha. Isso sem contar a estreante Silvia Pfeifer, uma modelo, logo como uma das protagonistas, que foi muito criticada.

Público gosta de sofrer

Os diretores de Meu Bem, Meu Mal foram os mesmos de Tieta, sucesso anterior a Rainha da Sucata _Paulo Ubiratan, Reinaldo Boury e Ricardo Waddington. Boury, hoje no SBT, falou sobre as mudanças pretendidas e abortadas. “Havia um sentimento de que as coisas deveriam mudar. Mudaram tanto que tivemos que voltar ao passado. O fato de Rainha da Sucata ser mais moderna [que Tieta] não agradou. Ela virou um novelão no final. Acho que o povo gosta de sofrer um pouco”, destacou.

Meu Bem, Meu Mal não foi um grande sucesso, mas manteve a audiência do horário. Em seguida, veio O Dono do Mundo, outra tentativa de inovação em certos pontos da trama, também rejeitada pelo público. Coincidentemente, trama de Gilberto Braga, que passa sufoco em 2015, desta vez com Babilônia.

Flávio Ricco comenta um dos belos momentos da novela O Rei Do Gado

 

 

A reprise de “O Rei do Gado” proporciona momentos de raras maravilhas…

… Como, por exemplo, ver Raul Cortez quase cinco minutos em cena, sem dizer uma única palavra, só com algumas reações faciais e a música “Italiana” de fundo. Show.
Flávio Ricco com colaboração de José Carlos Nery

“O Rei do Gado” volta ao ar na Globo no dia 12 de janeiro

Brigas de Bruno Mezenga (Antônio Fagundes) e Geremias Berdinazzi (Raul Cortez) voltam ao ar no "Vale a Pena Ver de Novo"

Brigas de Bruno Mezenga (Antônio Fagundes) e Geremias Berdinazzi (Raul Cortez) voltam ao ar no “Vale a Pena Ver de Novo”

A Globo definiu para 12 de janeiro a estreia da novela “O Rei do Gado” no “Vale a Pena Ver de Novo”.

A novela de Benedito Ruy Barbosa gira em torno das desavenças entre Bruno Mezenga (Antônio Fagundes) e Geremias Berdinazzi (Raul Cortez).
Flávio Ricco com colaboração de José Carlos Nery
O elenco ainda tem nomes como Glória Pires, Patrícia Pillar, Letícia Spiller, Marcello Anthony, Leonardo Brício, Manuel Boucinhas, Tarcísio Meira, Eva Wilma, Vera Fischer, Fábio Assunção e Carlos  Vereza nos papéis principais.

Novela “Água Viva” faz canal Viva liderar audiência na TV paga

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 Divulgação/TV Globo

Um dos grandes sucessos da Globo nos anos 80, “Água Viva” voltou a ser exibida no Viva, canal de reprises da Globosat na TV paga.

A novela foi escolhida em uma votação do público, que tinha como opções “A Indomada”, “Fera Ferida” e “O Dono do Mundo”. E parece que esta decisão foi acertada.

Segundo a jornalista Keila Jimenez, o primeiro capítulo exibido na última segunda-feira (30) foi líder de audiência na TV por assinatura.

“Água Viva” é de autoria de Gilberto Braga, com colaboração de Manoel Carlos e tem em seu elenco nomes como Raul Cortez, Reginaldo Faria, Betty Faria, Lucélia Santos e Beatriz Segall. A direção geral é de Roberto Talma e Paulo Ubiratan.

A novela é exibida de segunda a sábado, à meia-noite, com reprises às 12h.

Atualmente, o Viva ocupa a décima sexta colocação no ranking de audiência na TV paga, contando apenas índices da Grande São Paulo.

NaTelinha

Você escolhe o final… Você Decide!

Na década de 90, a televisão entrou na era da interatividade com o telespectador.

Na década de 90, a televisão entrou na era da interatividade com o telespectador. Se antes o público participava apenas falando ao vivo por telefone com o apresentador –  algo trazido do rádio e que se perpetua até hoje, como no “Bom Dia e Cia” -,  criou-se um programa no qual ele poderia escolher o final. Assim nascia, 8 de abril de 1992, o “Você Decide”.

A grande novidade foi ao ar uma vez por semana até 2000. As pessoas se mobilizavam com os temas – no início polêmicos  – e iam para as praças assistir em telões instalados pela Globo em diversas cidades. Nos dois primeiros anos, Virgínia Novick e Cristina Prochaska eram as repórteres encarregadas de entrar ao vivo e ouvir algumas dessas opiniões, antes dos intervalos comerciais. A tarefa passou para repórteres do jornalismo até ser extinta, em 1996.

A interação era feita por telefone, gratuitamente, através de números 0800. No estúdio, um apresentador explicava a história e, entre painéis que computavam os telefonemas, incentivava-os a interagir. “Aqui, você escolhe o final. Você Decide”, era a frase repetida por vários que ocuparam o posto.

O primeiro foi Antônio Fagundes, recém-saído da novela “O Dono do Mundo”. Em seguida outros medalhões da emissora como Walmor Chagas, Tony Ramos, Raul Cortez e Lima Duarte estavam presentes, ao vivo.

Durante boa parte desses oito anos havia a opção entre o SIM e o NÃO. Em 1997 foram criados três finais possíveis para cada episódio e um narrador conduzia os acontecimentos. Depois voltou a ter duas opções.

Em 1998 Celso Freitas, que já havia apresentado o “Globo Repórter” e o “Fantástico”, foi deslocado para comandar o “Você Decide” – que no ano seguinte, já fragilizado para encarar a concorrência, passou a ir ao ar às 23h, após o “Zorra Total” por breves meses e, em seguida, após o Linha Direta, que ocupava o horário das 22h.

O programa parecia já estar chegando ao fim pela precariedade dos enredos a serem decididos quando o jornalista foi substituído por Luciano Szafir, dando mais um ano de fôlego para a atração, muito pelos ternos justos que usava. Mas foi apenas uma sobrevida, já que sairia do ar em agosto de 2000, com a desculpa de adequar a grade ao horário político.

Temas como aborto, drogas, violência contra a mulher, adoção, eutanásia e corrupção eram imperdíveis para os telespectadores nos primeiros anos.  Inicialmente a exibição era às quartas depois da novela das 20h – naquele tempo ela terminava 21h35 e não havia transmissão de futebol. Depois passeou pela grade, indo ao ar às quintas, sábados ou terças, conforme o ano.

Os mais antigos afirmam que o “Você Decide” é uma espécie de “filho” do “Caso Especial”, presença constante nos anos 70 na programação e que foi diminuindo de frequência durante a década de 80. O “Caso” também apresentava uma história que se resolvia num dia, mas o final já estava definido.

A cada semana o elenco do programa mudava. Quando os assuntos a serem decididos ficaram mais supérfluos e desinteressantes, experimentou-se fazer alguns com continuidade. Quem chegou mais longe foi “Transas de Família”, com Maria Zilda, José de Abreu e Estelita Bell, em 2000, com 5 episódios. Quase virou série, mas o projeto não foi adiante. No ano seguinte a emissora preferiu apostar no remake de “A Grande Família”.

Um dos pontos positivos foi dar aos atores a chance de fazerem obras curtas e não ficarem meses presos aos mesmos personagens. Além da oportunidade para os “encostados” na Globo numa época em que a Record ainda não contratava como hoje, permitia também que alguns cantores protagonizassem histórias, como Netinho de Paula.

Sucesso, o formato foi vendido para mais de 60 países de todo o mundo. Na onda da interatividade, foi criada em 1996 a sessão “Intercine”, na qual era possível escolher, também por telefone, que filme assistir, entre duas opções. No ar inicialmente às 22h30, foi sendo jogada para cada vez mais tarde – depois do “Jornal da Globo” e, em sua última fase, após o “Programa do Jô”, por volta das 2h, até ser extinta em 2011.

Menos de 11 meses depois de sair do ar, a Globo surpreendeu reprisando o “Você Decide” no lugar das novelas do “Vale a Pena Ver de Novo”, em julho de 2001. Desta vez a apresentação ficou por conta de Susana Werner e os telespectadores podiam opinar pela internet.

A audiência, que já não era boa com a reprise de “Roque Santeiro”, despencou, o que fez com que apenas 15 episódios fossem levados novamente ao ar, cujos finais escolhidos foram os mesmos da primeira vez. “A Gata Comeu” foi escalada para a primeira re-reprise da sessão, cumprindo a missão de recuperar o Ibope e cativando um público que não pôde assisti-la em 1985 e 1989. O fracasso fez a emissora abandonar a ideia de revezar novelas com outros formatos na sessão vespertina.

Como tudo vai e volta na TV – vide as “Pegadinhas” e “Testes de Fidelidade” – é impossível dizer se, repaginado para se adequar às novas tecnologias, esse formato vingaria novamente, já que cada vez menos as pessoas param em frente ao aparelho para ver uma atração em um horário determinado.  A longo prazo, quando o politicamente correto dar uma trégua para que assuntos polêmicos sejam tratados, quem sabe…

Por: Por: Jonathan Pereira – Contato: antenadojp@gmail.com