Repetitiva, Geração Brasil parece novela de um personagem só

Por RAPHAEL SCIRE, em 08/07/2014 · Atualizado às 06h03

Picotada durante a primeira fase da Copa, a novela Geração Brasil (Globo) aproveitou a oportunidade para lançar um aplicativo de vídeos disponível para download no site oficial da trama. A tentativa era a de promover a história também em outras telas, já que a novela caminha para a interatividade. Foi um tempo também de limpeza, uma vez que os autores suavizaram as referências tecnológicas e o inglês usado nas falas de alguns personagens.

Mas é importante notar que, apesar dos avanços transmídias, a história que está sendo contadana tela principal gira em círculos. Completamente centrada no protagonista, Jonas Marra (Murilo Benício), Geração Brasil não segue adiante.

A novela começou com a vinda da família Marra para o Brasil. Jonas logo promoveu um concurso para encontrar seu novo sucessor e agora enfrenta o drama de uma doença incurável. Com isso, as histórias românticas foram deixadas em segundo plano, apesar de os autores já terem esboçado o romance entre ele e a jornalista Verônica (Taís Araújo), destaque de todo o folhetim até então. O casal protagonista Manu (Chandelly Bras) e Davi (Humberto Carrão), passado o tal concurso, não encontra impeditivo e precisa deslanchar.

Outra prova dessa concentração de história no protagonista é que até mesmo o mais cômico dos personagens tenta emular o magnata da tecnologia. Barata (Leandro Hassum) é apaixonado por Verônica e chegou a promover um concurso para encontrar um gerente para sua loja de varejo, tal como Jonas. O figurino, aos poucos, também está sendo copiado. O personagem rouba a cena quando entra no ar e parte desse sucesso se deve ao carisma de seu intérprete.

Apesar de ter resgatado o humor para o horário, Geração Brasil não anda lá muito engraçada. Tem em cena um inspirado Lázaro Ramos (Brian Benson), em dobradinha com Luís Miranda (Dorothy), mas ainda assim é pouco.

Nota-se também a ausência de grandes vilões, mesmo que o horário peça malvados com um pé no riso. Glaucia Beatriz (Renata Sorrah) ainda não disse a que veio. Em compensação, há um excesso de minimonólogos – quase todos os personagens já tiveram a chance de falar sozinhos. Cansa.

O elenco está bem, ainda mais com a saída dos dois piores personagens da história: Alex (Fiuk) e Maria Vergara (Debora Nascimento), mortos em um acidente de carro, cujas circunstâncias ainda não foram explicadas e podem render desdobramentos interessantes, o que esperamos que aconteça logo. Mas bons atores encontram papéis aquém de seus talentos. É o caso de Aracy Balabanian (Iracema), Marcelo Airoldi (Elias) e até mesmo Claudia Abreu (Pamela).

Apesar de uma direção adequada, atores que defendem bem seus personagens e um texto bom, Geração Brasil precisa de um chacoalhão. E para isso não basta só diminuir as referências tecnológicas da trama, é preciso contar uma história mais empolgante.

Drama do pai que paga pelo crime do filho é destaque em “Flor do Caribe”

Luiz Carlos Vasconcelos e Cyria Coentro em “Flor do Caribe” (Foto: divulgação TV Globo)

Uma das tramas paralelas que mais chama a atenção em “Flor do Caribe” – a novela das seis da Globo – é a que envolve o pescador Donato (Luiz Carlos Vasconcelos), que pagou por um crime no lugar do filho, Hélio (Raphael Viana).

Sete anos atrás, Hélio atropelou um casal de turistas, matando-os, mas o pai assumiu seu lugar e cumpriu pena. Posto em liberdade, este era um segredo entre Donato e Hélio e ele esperava que o filho assumisse a culpa, pelo menos diante da família.

Hélio, um rapaz ambicioso, prosperou economicamente, e um crime é uma mancha que poderia estragar seus planos maiores de ascensão social. Donato, sofrendo com a situação, não conseguiu mais esconder este segredo de sua mulher, Bibiana (Cyria Coentro).

O capítulo deste sábado de “Flor do Caribe” (04/05) apresentou uma das cenas mais emocionantes da novela até agora. Bibiana chama o filho para um acerto de contas com o pai, e toda a verdade vem à tona. Em uma sequência de quase nove minutos, os três atores expõe um texto bonito, através de uma direção competente, esbanjando emoção na medida certa.

Os experientes Luiz Carlos Vasconcelos – que já apresentara outras cenas emocionantes na novela – e Cyria Coentro tomam a situação com segurança e talento, e passam a vez para o novato Raphael Viana, que consegue segurar na mesma emoção e também faz bonito. O resultado final é um texto de forte carga dramática, em uma direção segura, com trilha sonora perfeita.

São sequências como essa que fazem todo o diferencial em uma novela, independente da proposta dela. Ponto para o trio de atores, para Walther Negrão e sua equipe de roteiristas, e para Jayme Monjardim e seus diretores. Jayme é um diretor completo, que dirige atores como poucos hoje na televisão, juntando beleza estética e trilha sonora condizente.

Filhos ambiciosos com vergonha de pais simplórios são um prato cheio para ótimos em trechos folhetinescos. Vide Maria de Fátima e sua mãe Raquel (Glória Pires e Regina Duarte) em “Vale Tudo” (1988) e – mais recentemente – Guilherme e sua mãe Dulce (Klebber Toledo e Cássia Kis Magro) em “Morde e Assopra”, e Antenor e sua mãe Griselda (Caio Castro e Lília Cabral) em “Fina Estampa”.

O drama de Donato e Bibiana promete mais emoções, uma vez que Hélio já deu mostras de não estar nem um pouco preocupado com o sofrimento dos pais. Serão eles um obstáculo em sua obsessão por poder? A novela tem bastante chão pela frente.

Raphael Viana em “Flor do Caribe” (Foto: divulgação TV Globo)

 

Nilson Xavier  ‐ UOL