O futuro da Globo após 50 anos de história

Abril chegou ao fim nesta quinta-feira (30) e o mês de maio é o primeiro dos próximos 50 anos da Globo. A emissora busca se reinventar dia após dia diante das novas tecnologias e das mudanças de comportamento do telespectador. Para isso, as principais mudanças são focadas sobretudo em pessoas.
Embora a população do Brasil continue crescendo e o número absoluto de telespectadores também, pilares da Globo, como as novelas, deixaram de ser unanimidade. Folhetins que antes paravam o Brasil, com médias que já chegaram à casa dos 90 – ou até 100 pontos – são cada vez mais raros.
Diferente do que ocorre na maioria dos mercados, onde a concorrência ocorre entre empresas, a Globo não vê seu primeiro lugar ameaçado – menos ainda em suas novelas. A questão é mais grave, já que o concorrente é pouco conhecido, está em constante movimento e pode ser um caminho sem volta. A popularização da TV a cabo e da internet, por exemplo, fizeram com que o telespectador deixasse de acompanhar um produto quando este estivesse passando para vê-lo em horários mais acessíveis, como os da TV a cabo, ou simplesmente quando quisesse, pela internet.
Dramaturgia:
Embora mantenha seus três horários fixos de novelas, “Malhação” e uma novela na faixa das 23h por ano, apostas pesadas começaram a ser feitas em séries. Nos anos 80 e 90, foram menos de 20 apostas no gênero. Apenas nos anos 2000, foram pouco mais de 20 e de 2010 para cá foram mais de 25.
As produções costumavam ser limitadas ao campo da comédia, com poucos cenários, externas e com raras escalações de peso tanto para o elenco como para a direção. Ao longo dos últimos anos, no entanto, as apostas passaram a ser cada vez mais pesadas, com deslocamento de nomes do horário nobre e em busca sempre de diferenciação.
Em 2010, por exemplo, João Emanuel Carneiro, vindo do sucesso de “A Favorita”, escreveu a misteriosa “A Cura”. Em 2014 foi a vez de Glória Perez ingressar no ramo das séries – ela só havia escrito novelas e minisséries. Seu trabalho, “Dupla Identidade”, contou com várias críticas positivas. Fernanda Montenegro, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, fez “Doce de Mãe” no mesmo ano. Já Glória Menezes, outro importante nome da TV, estrelou “Louco por Elas” em 2012.
Autores sem ou com pouca experiência em novelas começaram a ganhar espaço em séries e sempre contando com ajuda de diretores de prestígio. Wolf Maya, José Alvarenga Jr., Daniel Filho e Maurício Farias, todos veteranos, são alguns dos diretores mais engajados nos últimos tempos na produção de séries.
Jornalismo:
Diante da demanda permanente pela informação, que continuará existindo independente dos meios que existem e que forem criados de agora em diante, a Globo vem se preparando para estar sempre alinhada com o telespectador. As maiores provas deste novo movimento são bastante explícitas nos últimos cinco anos.
A Globo quebrou seus próprios padrões e passou a apostar em um jornalismo mais popular e próximo do telespectador. O “Praça TV” de suas filiais, por exemplo, deixou de ter um padrão de cenários, permitindo assim que cada região pudesse explorar a estética da forma que preferisse – mas sempre dentro do famoso padrão de qualidade global. A bancada, antes imprescindível para qualquer informativo, é cada vez menos usada: os jornalistas ficam em pé na maior parte do tempo.
Ao longo dos últimos seis meses, tais mudanças ficaram ainda mais explícitas a partir de dois exemplos. Em dezembro de 2014, a Globo lançou o “Hora Um da Notícia”, quebrando assim um hiato de 31 anos sem lançamento de jornais – algo que aconteceu simplesmente porque o canal entendia que os noticiários existentes atendiam plenamente à demanda.
O “Hora Um”, comandado por Monalisa Perrone, busca trazer as principais notícias para o telespectador que cada vez acorda mais cedo, ainda mais nos grandes centros. A faixa das 5h era ocupada por enlatados e o SBT, mesmo com jornal gravado, levava vantagem por oferecer informação a tal público.
Outro marco importante foi a mudança no “Jornal Nacional”, que lançou seu novo formato na última segunda-feira (27). Ainda que continue sendo apresentado da central de jornalismo, o “JN” passou por uma das maiores mudanças de toda sua história. Os âncoras, antes sempre sentados, passaram a se movimentar pelo cenário. Telões foram inseridos como forma de elevar a interatividade com repórteres em campo como também com o próprio telespectador, que passou a acompanhar a interação de forma menos engessada. O próprio tom passou a ficar menos formal.
Entretenimento:
O entretenimento é visto como uma área fundamental e que deverá ser cada vez mais acionada pela Globo ao longo dos próximos anos. Levando em conta que enlatados, como desenhos, filmes e séries, podem ser acompanhados pela TV a cabo ou pela internet – caminho este que é considerado sem volta e irreversível, os investimentos na compra de conteúdo estrangeiro vem sendo cada vez mais dispensável.
No entanto, para suprir tais horários, como o das manhãs, a Globo vem recorrendo à produção própria de entretenimento. Apenas nos últimos cinco anos, a “TV Globinho” foi extinta e o entretenimento ganhou mais 10 horas semanais através do “Bem Estar” e do “Encontro com Fátima Bernardes”. Apesar de não terem emplacado de imediato, os ajustes feitos ao longo do caminho provaram que a emissora estava certa ao abrir mão do público infantil.
Embora a Globo não confirme de forma oficial, existem mais dois alvos na mira. O primeiro deles é a “Sessão da Tarde”, tradicional sessão de filmes que atravessou gerações e tem mais de 40 anos no ar. Seu conteúdo é cada vez menos interessante ao telespectador, já que a maioria dos títulos já foi reprisada à exaustão e que acessá-los de outra forma não exige um trabalho complexo ou de custo: basta ir à internet ou vê-lo nas exaustivas reprises da TV a cabo nos mais diversos horários.
A imprensa já levantou vários prováveis substitutos da “Sessão da Tarde”. Patrícia Poeta, que deixou o “Jornal Nacional” em 2014, e Fernanda Lima, consagrada pelo “Amor & Sexo”, são alguns dos nomes em vista para uma atração de variedades. No entanto, a emissora ainda não conseguiu ressuscitar o “Vídeo Show”, que teve seu formato alterado diversas vezes sem reação nos índices. São poucas as chances de um novo produto ser lançado em tal horário antes que o “Vídeo Show” deixe o radar da emissora.
Outro alvo é a “Tela Quente”, que tem mais de 25 anos no ar. A sessão não tem baixos índices, já que o número de reprises é menor e há o suporte da novela. No entanto, seu horário é estratégico e cobiçado principalmente pela dramaturgia, que tem a expectativa de uma série ou até mesmo da antecipação da novela das 23h para esta faixa.
A Globo já veio a público negar o fim da “Tela Quente”. No entanto, considerando o ocorrido com a “TV Globinho” e com as movimentações em busca da redução de conteúdo internacional e da priorização do que é produzido aqui, sabe-se que são poucas as chances da sessão estar no ar em um próximo aniversário de data redonda da Globo.
NaTelinha

Flávio Ricco comenta críticas de pessoas que foram esquecidas na série dos 50 anos apresentada no Jornal Nacional

Crítica
Até agora chegam reclamações de pessoas que foram esquecidas na série dos 50 anos apresentada no “Jornal Nacional”.
O problema é que, para colocar todo mundo, seria necessário fazer um ano de programa. O erro foi fazer o programa, sabendo que só alguns seriam chamados e os demais esquecidos.
Flávio Ricco com colaboração de José Carlos Nery