Como fica o Brasil à espera do impeachment, ou após a renúncia de Dilma

Notícia Publicada em 17/03/2016 09:32

Muita calma nessa hora: nenhum dos cenários é um mar de rosas

Protesto desta quarta: briga política será um mata-mata de Copa do Mundo (Wilson Dias/Agência Brasil)
Protesto desta quarta: briga política será um mata-mata de Copa do Mundo (Wilson Dias/Agência Brasil)

SÃO PAULO – A divulgação da conversa entre a presidenteDilma Rousseff e o agora ministro da Casa Civil Luiz Inácio Lula da Silva é uma bomba de muitos megatons sobre Brasília. Ela incendiou a oposição, que exigiu, a plenos pulmões, a renúncia da presidente no Congresso, os manifestantes pró-impeachment, e mexeu com os brios do PT, que promete reagir à altura. Com isso, voltaram as apostas sobre o que virá primeiro: a renúncia de Dilma ou o seu impedimento pela Câmara. Mas a pergunta é: o que acontecerá com o país, nos dias que antecederão a votação do impeachment pelo Congresso, ou nas primeiras horas de uma eventual renúncia.

Para os cientistas políticos, embora os olhos de muitos brasileiros brilhem com essas possibilidades, nenhum dos cenários é um passeio pelo arco-íris. Seja à espera de uma decisão para o impedimento; seja no rescaldo de uma hipotética renúncia, o Brasil estará a bordo de uma verdadeira montanha-russa dentro de um castelo assombrado.

Por ora, a renúncia de Dilma é o cenário mais improvável para a grande maioria dos especialistas. “Não faz parte do DNA de Dilma, de Lula nem do PT simplesmente entregar o poder”, afirma o cientista político Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice, aludindo ao traço aguerrido da legenda e de seus principais nomes, forjados nas lutas sindicais e em duros embates no passado.

Mas vamos supor que, diante da gravação divulgada nesta quarta-feira (16), após o juiz Sérgio Moro revogar o sigilo de Justiça da Operação Lava Jato, Dilma conclua que não tem mais condições de governar e decida deixar o Palácio do Planalto. Para Aragão, os primeiros momentos pós-renúncia seriam decisivos para pacificar o país – algo que ficaria a cargo de Michel Temer, o atual vice-presidente.

Tempo urge

“Temer teria que dar respostas rápidas para aglutinar novamente a base”, afirma. A seu favor pesaria o fato de que o PSDB, hoje o principal partido da oposição, tenderia a baixar o tom das críticas; o PMDB, maior partido da base aliada de Dilma e presidido por Temer, tentaria reparar seus grandes rachas internos; e os partidos ideologicamente incolores seriam atraídos para a órbita do governo. “Temer governaria com aquele centrão que todos já conhecem”, diz Aragão, referindo-se a legendas como o PP e o PR.

Num primeiro instante, quem mais perderia seria, obviamente, o PT, que ocupa o poder desde 2002, com a primeira eleição de Lula. “Se Dilma renunciar, o discurso da esquerda de que há um golpe em curso perderia um pouco de sua legitimidade”, explica. Assim, a capacidade de reação da legenda ficaria enfraquecida.

A avaliação, contudo, não é um consenso. Para o cientista político Paulo Silvino, da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), a renúncia “seria o pior dos mundos”. Para Silvino, o ato representaria a capitulação de Dilma a um clamor de apenas uma parcela da população, e não de todos os brasileiros, como os movimentos responsáveis pelos atos pró-impeachment defendem. “No longo prazo, o caráter nefasto dessa situação ficaria mais claro”, diz.

Porta é serventia da casa

Sem grandes possibilidades de renúncia, a maior aposta dos analistas políticos e do mercado é que o impeachment encerrará esse capítulo da história brasileira. Nesta quarta, além de todo o terremoto que sacudiu o Palácio do Planalto, o STF finalmente esclareceu as dúvidas sobre o rito do processo de impedimento no Congresso. Com isso, abriu caminho para que a comissão especial que analisará o caso seja instalada.

A oposição quer acelerar ao máximo sua tramitação. Em entrevista a O Financista, o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno, afirmou que a intenção é decidir tudo num prazo inferior aos 45 dias previstos na Constituição. Por enquanto, a maioria dos analistas estima que o processo só chegue ao seu termo em maio.

Mas como ficará o Brasil nesse meio-tempo? “Paralisado, à espera de uma saída”, resume Aragão, da Arko. Dentro do governo, Lula correria contra o tempo para transformar os retalhos da base aliada em uma colcha capaz de aquecer, ainda que precariamente, o Planalto. A seu favor, está seu instinto político apurado – algo que até mesmo seus mais aguerridos adversários reconhecem.

“O PT aposta que Lula conseguirá reorganizar a casa”, diz Silvino, da Fespsp. “Para isso, a própria Dilma deverá sair de cena, pois ela, hoje, é a própria personificação da crise.” Fora do palácio, o PT tentaria reunir o máximo de apoio nas ruas, para provar que consegue falar mais alto do que os que defendem o impeachment.

Mata-mata

A resposta de seus adversários, porém, deve ser à altura. Uma amostra foram as manifestações de domingo (13), consideradas as maiores da história. Tudo isso fará as ruas ferverem, segundo Aragão. “Haverá muita tensão social neste período, porque este não é um governo como o de Collor”, afirma, em alusão ao impeachment de Fernando Collor, em 1992. Na época, o alagoano foi eleito por um minúsculo partido e, portando, contava com uma base frágil.

Agora, estamos falando do PT – uma legenda que ainda é capaz de mobilizar setores como os sindicatos e os movimentos sociais. “Estaremos assistindo a uma final de Copa do Mundo”, emenda Aragão. E, para continuar numa metáfora futebolística, seria uma espécie de Brasil versus Argentina – um jogo duro, nervoso, cheio de encontrões, faltas e catimba de ambos os lados.

 

O FINANCISTA

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