Roraima – ‘Continuo salvando vidas’, diz piloto de RR um ano após acidente de avião

Avião caiu em outubro de 2014 e passageiros ficaram 5 dias na selva.
Relatório aponta que houve erro no cálculo da gasolina; piloto contesta.

Bandeira do estado de Roraima

Um ano após o acidente o piloto Nonato Lima já voltou a voar a fazer resgates (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Um ano após o acidente com a aeronave Cessna, que deixou cinco pessoas perdidas na região Sul de Roraima, o piloto Raimundo Nonato Lima que comandou o voo, relata ao G1 que já voltou ao trabalho e continua fazendo a remoção de pacientes em risco do interior do estado para a capital. “Continuo salvando vidas”, diz.

Nonato, o técnico em enfermagem do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) Anderson Teixeira, uma mulher grávida de oito meses, outra com problemas na placenta e o seu bebê recém-nascido, estavam na aeronave modelo U206G e matrícula PP-FFR que caiu no dia 26 de outubro de 2014 e ficou desaparecida na selva por cinco dias.

Foi uma guerra”
piloto Raimundo Nonato Lima

O grupo ficou quase uma semana perdido na selva até ser resgatado no dia 31 de outubro. Apesar da experiência ter sido traumática, o piloto garantiu que não se deixou abalar.

“Foi traumático. Nós ficamos sem água, sem comida, mas você tem que sobreviver, então tem que encarar. Lógico que a fome e a sede causam distúrbios no cérebro, mas eu consegui manter a calma. Foi uma guerra”, lembra Nonato.

Como lição, o comandante afirma que atualmente se recusa a voar em aeronaves que não estejam em condições boas. “Se o avião tiver algum problema que eu ache que não está satisfatório para o voo, eu não sigo viagem”.

Nonato ressalta que os treinamentos feitos durante os seus 23 anos que atua como piloto, foram fundamentais para a sobrevivência na selva. Para os colegas de profissão, ele recomenda: “mantenham a ordem, a disciplina e os treinamentos em dia”.

De novembro do ano passado a abril deste ano, Nonato ficou responsável pela parte administrativa da empresa em que trabalha e aproveitou para fazer uma série de exames exigidos para que pilotos que passaram por acidentes voltem a voar.

Sobrevivendo na selva
O piloto lembra que ele e o técnico em enfermagem Anderson tinham sido acionados para fazer a remoção em Santa Maria do Boiaçú, no Sul do estado, de uma paciente com complicações no parto. Para segurar o bebê durante o voo, uma gestante que tinha uma consulta médica em Boa Vista completou a tripulação.

“Com uma hora de voo na volta, o motor da aeronave parou sob uma reserva indígena e eu tive que fazer um pouso de emergência [queda]”, lembra o comandante.

Passageiros do avião teriam improvisado um acampamento na selva  (Foto: Divulgação/FAB)Passageiros do avião improvisaram um
acampamento na selva (Foto: Divulgação/FAB)

Após a queda, para esperar o resgate, os cinco sobreviventes montaram um acampamento próximo da aeronave. “Fizemos um acampamento improvisado perto do avião para cobrir principalmente a mulher que tinha dado à luz”, conta Anderson, acrescentando que no primeiro dia, viu o piloto comendo uma raiz de capim, com isso “percebi que íamos ficar muito tempo alí”.

Nos três primeiros dias, a tripulação aguardou próximo ao avião pelo resgate. Sem comida, com a situação da paciente se agravando e após serem perseguidos por uma onça enquanto buscavam alimento, o grupo resolveu sair do local onde estava a aeronave para tentar chegar ao Rio Branco, principal rio da capital roraimense.

“A regra é não sair de perto da aeronave”, destaca Nonato, “mas eles estavam com medo. Para não entrar em conflito eu sai. Mas se a gente tivesse ficado na aeronave no terceiro dia teríamos sido resgatados. Então que isso sirva de lição. É importante manter as regras de sobrevivência”, declara.

Nos outros dias a situação do grupo piorou, segundo Anderson. Sem água e sem comida, eles se alimentavam de sementes, flores e bebiam a água suja que conseguiam encontrar no solo. “De noite, na mata fechada, escutávamos os barulhos dos animais passando por perto”.

Bilhete encontrado no avião  (Foto: Divulgação/FAB)
Bilhete encontrado no avião foi fundamental para
o resgate dos passageiros (Foto: Divulgação/FAB)

O bilhete e o resgate
Antes de saírem do avião, Nonato escreveu um bilhete informando o estado dos passageiros e para que direção seguiriam.”Deixei o bilhete na aeronave indicando a direção que eu ia e não saí dela”.

No dia 30 de outubro, o avião foi localizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) junto com o bilhete. Seguindo as coordenadas da nota, no dia 31 a tripulação foi localizada a cerca de 3,5 km de onde a aeronave estava.

“Tinha pesadelos”, disse técnico em enfermagem
À reportagem, Anderson conta que os três primeiros meses após o acidente foram os mais difíceis. “Tinha pesadelos quando ia dormir. Sonhava com a hora do pouso e com a hora em que fomos resgatados. Meu maior medo era que alguém que estivesse sob os meus cuidados morresse”, relata.

Para resolver o problema, o socorrista procurou ajuda médica e atualmente já retomou a vida normal e ao trabalho. “Ainda não fui fazer remoção no interior, mas os colegas seguem com a função”.

Já para o comandante Nonato, o ocorrido faz parte do trabalho. “Eu já estou com mais de 22 mil horas de voo. Acidente é consequência. Eu continuo salvando vidas e voando. É o que eu gosto de fazer e vou voar até os meus 65 anos, se Deus permitir”.

Após o acidente, Nonato e Anderson acabaram criando um vínculo de amizade. “Nos encontramos sempre para conversar, não só sobre o acidente”, diz o técnico em enfermagem. Segundo o piloto, as duas mulheres e o bebê que estavam no avião também estão bem.

Socorrista contou que após acidente tinha pesadelos constantes com a queda do avião (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)
Socorrista contou que após acidente tinha pesadelos constantes com a queda do avião
(Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Relatório do acidente
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da FAB emitiu um relatório sobre o acidente. No documento os técnicos destacaram que a tripulação não deveria ter se afastado do avião, fato que atrasou o resgate e que o planejamento do tempo de voo foi mal calculado.

“Provavelmente, a aeronave, mesmo que estivesse com os tanques cheios, não chegaria ao destino, uma vez que, somando-se o tempo total de voo de 4h20 de deslocamento […] mais o tempo de solo com o motor girando, de 15 minutos, chega-se ao valor de 4 horas e 35 minutos de voo, ou seja, 5 minutos a mais do que a autonomia máxima da aeronave”, explica o relatório.

Avião Cessna, U206G, matrícula PP-FFR, foi encontrado na tarde desta quinta-feira (30) (Foto: Divulgação/FAB)
Avião Cessna, U206G, matrícula PP-FFR, foi
encontrado no lavrado sem grandes danos
(Foto: Divulgação/FAB)

Sobre o veredito, Nonato afirma que irá contestar. “Eles vão ter que mudar o relatório ou vou processá-los. Eles acharam que eu não tinha autonomia. O avião voa 5h30 e eles disseram que eu só tinha 4h20. Eles não conhecem a aeronave. Disseram que caí por falta de gasolina e não é verdade. Tenho testemunhas, o problema era na linha de alimentação do motor”, garante o piloto.

Em nota, o Cenipa afirma que as investigações foram baseadas em protocolos internacionais e são realizadas por uma comissão multidisciplinar. “O objetivo é identificar os fatores que contribuíram para o acidente, a fim de gerar recomendações que tornem a aviação mais segura”, finaliza.

Investigações do governo
O governo de Roraima também afirmou à época que iria investigar o acidente. Por nota, o governo informa que a sindicância em relação ao queda do Cessna foi concluída, mas que as informações só poderiam ser fornecidas na terça-feira (3) em virtude do feriado de finados.

 

G1.COM.BR

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