Renato Maurício Prado comenta como devemos mudar o nosso futebol

Se quisermos mesmo mudar o nosso futebol, para tirá-lo do fundo do poço em que se encontra, o primeiro passo tem que ser uma mudança radical no sistema eleitoral das Federações e da própria CBF. Do jeito que está, as múmias que se alojaram no poder há décadas permanecerão intocáveis e, por mais que se façam de “modernas e abertas ao diálogo” quase nada vai se modificar.

Os grandes clubes precisam decidir os seus próprios destinos e devem fazê-lo em discussões entre eles e não em órgãos que só fazem sugar o dinheiro alheio, mantidos pelos votos de ligas municipais e amadoras, entidades que não geram um centavo sequer e não têm importância alguma no cenário esportivo do país.

Um exemplo tragicômico é o da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Cada um dos clubes da série A tem direito a seis votos (e aí já começa o absurdo, pois os quatro grandes são equiparados aos nanicos do campeonato). Mas isso é pouco.

São 30 os clubes amadores da capital. E todos têm direito a um voto. Ou seja, bastaria o apoio deles para derrotar qualquer proposta de Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. E quais são esses clubes? Fiquemos apenas nos mais folclóricos: Colônia Juliano Moreira, Futuro da Lagartixa, Piscinão de Ramos, Cometa Rio e por aí vai.

Já se indignou bastante? Guarde a sua ira e a sua perplexidade. Tem mais. Bem mais. Igualmente, têm direito a um voto cada uma das 85 (isso mesmo, oitenta e cinco!) ligas municipais: Liga do Macuco, Carapebuense, Buziana, Aperibeense, Fidelense, Ubaense, Lajense etc, etc.

Resumo da ópera: se os grandes clubes não se rebelarem para mudar esse quadro eleitoral ou formar uma liga paralela (no estilo da Premier League, inglesa, por exemplo), não haverá saída. Os caixas d’águas, rubinhos, marco polos e quejandos continuarão mandando e desmandando no futebol brasileiro ao seu bel prazer.

E nesse caso, nem o FBI salva, porque sairá um Marin e, talvez até um Del Nero, e entrarão outros, do mesmo naipe. Os grandes clubes brasileiros só serão viáveis se conseguirem se unir em prol de modificações profundas na forma de conduzir o velho e violento esporte bretão por aqui.

Sem essa conscientização (e imediata ação) não há Lei de Responsabilidade Civil, Profut, Refis, o que for, capaz de salvá-los. Por isso, dou risada quando se fala que a CBF buscará caminhos e soluções no tal Conselho de Desenvolvimento Estratégico do Futebol Brasileiro. Me engana que eu gosto.

 

Renato Maurício Prado – O GLOBO – 5.7.2015

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