Renato Maurício Prado usa personagem da ficção para falar do otimismo da torcida do Flamengo na conquista do TRI da Copa do Brasil em 2013

 

O urro veio das profundezas do Chafariz das Saracuras, onde o ciclope fazia a higiene (?!?) matinal. Bastou me ver, cruzando a praça, e, pronto, com a agilidade de um gato, apesar do corpo de elefante, o monstro saltou à minha frente: “Chefia, só falta um 0 a 0 pra pôr a faixa no peito! Tá no papo!” Claro, era o Bagá. Açodado como sempre. Empolgado como não o via faz tempo.

É indiscutível que o empate em 1 a 1 superou as expectativas da torcida rubro-negra. Afinal, os estádios de Curitiba sempre foram espécies de caveiras de burro para o Flamengo. Além disso, a excelente campanha do Atlético Paranaense no Brasileiro (bem superior à do rival) e a goleada aplicada no último confronto entre os dois, em pleno Maracanã (4 a 2, provocando o pedido de demissão de Mano Menezes), justificavam o temor de que o título da Copa do Brasil pudesse ser praticamente decidido no primeiro jogo. Mas não foi…

— Na boa, chefia, vou confessar: antes de a bola rolar eu “compraria” uma derrota por 2 a 1 com o maior prazer. Mas aí o Amaralzinho encarnou o “Tromba” (Andrade), com aquele chutaço de fora da área, que me lembrou o sexto dos 6 a 0 no Foguinho, em 81, e tudo mudou — vibrava o negão, com a beiçola trêmula e o olho rútilo.

De fato, o golaço de Amaral, empatando o jogo, na Vila Capanema, deu um novo alento ao Fla (até então, acuado) e assustou os paranaenses. Ia concordar com o Bagá, mas, antes que abrisse a boca, ele prosseguiu sua cantilena:

— E pensar que, com o Mano, o Amaralzinho nem no banco ficava! Esta foi a grande sacada do Jayme! Depois que o “pitbull” entrou, até o Wallace se firmou e começou a jogar bem! Fora que o Léo Moura ganhou mais confiança pra apoiar o ataque.

Na acertada escolha de Jayme, o mais fanático e tresloucado dos flamenguistas vê semelhanças com o trabalho de Andrade:

— Chefia, a entrada do Amaral no time do Jayme me lembra a escalação do Petkovic, com o Andrade. Ambos eram desprezados pelos treinadores anteriores e, quando os novos técnicos assumiram, e os colocaram em campo, acertaram o time! Claro que o gringo jogava muito mais, mas que a escalação dos dois foi decisiva, foi.

Apenas balancei a cabeça, afirmativamente, e Bagá, inflamado, prosseguiu com a sua tese:

— Assim como o “Tromba”, o Jayme ganhou o grupo porque é humilde, cria da casa e sabe levar todo mundo com jeitinho, sem arrogância ou broncas humilhantes. A turma corre por ele, como correu, em 2009, pelo Andrade.

Novamente, fiz menção de anuir, mas quem disse que o tresloucado torcedor queria saber a minha opinião? Seu negócio era desabafar toda a sua alegria esperançosa. Fã declarado do Brocador, o sacrossanto crioulo já previa que será dele o gol da vitória e da conquista da Copa do Brasil.

— No “Maraca”, nosso camisa nove é iluminado. Encarna o espírito do Nunes. Podem chamá-lo de Brocador à vontade, mas, pra mim, ele é o “Hernunes” e também se consagrará como o artilheiro das grandes decisões — bramiu, delirante.

Para refrear-lhe um pouco a exaltação que já chamava a atenção de feirantes e fregueses da tradicional feira da General Osório, apelei:

— E o Carlos Eduardo, Bagá?

O gigante de ébano acusou o golpe. Calou-se por um instante, franziu o cenho e, confesso, já temia pela minha integridade física quando ele soltou um profundo suspiro, cerrou os olhos e ergueu a fronte aos céus com ar de “Pai, perdoai porque eles não sabem o que fazem!”

— Bem que o Pelaipe e o Walim podiam liberar o Jayme pra escalar o time completo, ao menos na finalíssima, né? A galera que vive na noite já sabe que o cara (Carlos Eduardo) é bom de festa, não de bola… Tá sempre com um soninho que dá dó…

Registrado o (corretíssimo) protesto, o ogro tratou de recolocar o sorrisão de poucos dentes e muitas gengivas nos beiços e profetizou:

— Seja como for, aposto que seremos campeões. Mesmo jogando com dez, chefia! Está escrito há um milhão de anos — disse, parafraseando o saudoso tricolor Nélson Rodrigues, com fervor.

Amém, Bagá! Amém…

 

Renato Maurício Prado – O GLOBO – 22/11/2013

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