James Akel transcreve em sua coluna texto escrito por Moisés Rabinovic

 

Meus amigos, achei que na cobertura da morte e vida do dr. Ruy acabou escapando uma faceta dele que me comovia: a amizade com o círculo íntimo que o servia. Então, resolvi escrever, só para registro, sem o empenho que cobraria uma reportagem como a dos velhos tempos do Jornal da Tarde. Aqui vai, com meus abraços a todos.
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O pior dia nos 47 anos de trabalho de Maria de Lourdes a surpreendeu na quinta-feira passada. O que pior que a morte do patrão que tanto venerava, o doutor Ruy, enterrado “ontem”, poderia ainda lhe acontecer?

Foi quando ela abriu uma porta: “Vi a cadeira dele vazia… desabei!”
Dia seguinte, sexta-feira, seu aniversário de 68 anos, Maria de Lourdes já tinha entrado e saído da sala do dr. Ruy inúmeras vezes. Não que houvesse superado o dolorido vazio, mas porque, como explicou, resignada, “a correria atropela os sentimentos”.

O dr. Ruy Mesquita, diretor do jornal O Estado de S.Paulo, era cercado por alguns funcionários fiéis que o admiravam e o tratavam com carinho. Estavam lá no velório e no enterro, tristes, anônimos, esquecidos na lista de presenças publicada no Estadão, embora reconhecidos pela família Mesquita como leais amigos, gente da casa. Um deles, o Barbosinha, esteve no hospital Sírio Libanês para visitar o chefe um dia antes de sua morte. Ficaram lembrando de outros tempos, quando falavam de futebol, no final das tardes em que se encontravam.

O trabalho de José Barbosa, o Barbosinha, consistia em levar documentos do Estadão e do (então vivo) Jornal da Tarde aos órgãos públicos. Sua vida, desde sempre, orbitou em torno do dr. Ruy e de seu irmão, dr. Júlio, morto há 17 anos, pois que nascido na fazenda da família em Louveira, administrada por seu pai. Perto, a 72 quilômetros de São Paulo, hoje ela reúne a nova geração dos Mesquita em finais de semana ou em festas.

Fazia mais de 20 anos que os contínuos Ademir Bento e Edson Vicente atendiam às campainhas dos irmãos Ruy e Júlio. Quando soavam sinalizavam, em geral, que as notas da página 3 do dia seguinte estavam lidas e prontas para publicação, desde que executadas as observações e correções pedidas à mão, letras difíceis de entender, à margem das laudas, ao tempo em que eram datilografadas, ou impressas especialmente do computador.

Acabou a campainha. Na ala da diretoria, no sexto andar do prédio do Estadão, agora reina o silêncio. O vaivém de Ademir e Edson será com certeza substituído pelo sistema de editoração já usado faz tempo nas redações, ou por e-mails. O outro trabalho de abastecer o dr. Ruy com resumos impressos das notícias vespertinas, ou convocar alguém da redação para reunião, agora está enterrado por invisíveis mensageiros eletrônicos ou endereços na internet.

Maria de Lourdes lembra a resistência do dr. Ruy em aceitar a cadeira de rodas sem a qual não poderia mais se mover. Foram Ademir e Edson que a tornaram mais fácil de ser suportada – e, por fim, adotada. Os dois o esperavam toda manhã no estacionamento do jornal, no bairro do Limão. Com carinho o tiravam do carro e o levavam até sua sala. À tarde, eram chamados para o traslado da volta. Uma vez, foram mobilizados para um extra, quando da morte de Olavo Setúbal.
Levaram-no ao cemitério, que ele fazia questão de despedir-se do amigo. Na casa da família na rua Angatuba, no Pacaembu, quem cuidava da operação com a cadeira de rodas, internamente, era Cássio, o faz-tudo.

O último dia de trabalho do dr. Ruy no jornal foi em 23 de abril. Agora definitivamente sem ele, a sua “turma” de íntimos anônimos passou a andar em “campo minado”. É a previsão de Maria de Lourdes, ela própria se retirando:

– Tinha combinado que quando ele nos deixasse, eu não ficaria. O campo está minado…
– Mas que minas são essas? E quem as plantou?

– Acompanhei o dr. Ruy no seu calvário por 17 anos, a contar da morte do irmão, o dr. Júlio. Antes servia aos dois, e passei a atendê-lo unicamente. Posso dizer: ele teve desencantos horríveis. Partia de sua sala cansadíssimo, desanimado, invariavelmente.

Embora sem o dizer, a fiel secretária se refere, provavelmente, à desunião familiar que faz o Estadão, agora sem o dr. Ruy, não ter mais um Mesquita no comando editorial. Mas não só, ela acrescenta: “O clima ficou péssimo”. Para os que fundaram o Jornal da Tarde, em 1966, o contraste não poderia ser maior. Acostumaram-se a ter o patrão por avalista ao alugar apartamentos, a assistir futebol ou momentos históricos ao vivo, pela tevê, com ele presente, torcendo, opinando e discutindo. E nos tempos de repressão pós Ato Institucional Número 5, um defensor de quem do jornal caísse preso, às vezes mesmo de alguém que não conhecesse. Não mais. À sua revelia, ondas de demissões se sucederam até há bem pouco tempo. Seu “vespertino” que fez época na imprensa brasileira, morto. Muitos repórteres e redatores hoje no jornal corroboram a visão de Maria de Lourdes. E também o baixo clero, os anônimos do Grupo Estado.

– Que Deus ilumine esse pessoal todo. Eu agora vou descansar – repetia Maria de Lourdes na sexta-feira, seu aniversário, como se quisesse ainda se convencer. Foi para casa depois de uma maratona de telefonemas para marcar a missa de sétimo dia do dr. Ruy. Hoje, às 11h, na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Jardim Paulistano.

Escrito por jamesakel@uol.com.br às 12h16 no dia 27 de maio de 2013

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