Incoerências e furos de roteiro ajudaram na repercussão “Salve Jorge”

Nanda Costa e Rodrigo Lombardi em “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/TV Globo)

O “bonde do recalque” se desfez nesta sexta-feira (17/05), com a exibição do último capítulo de “Salve Jorge”. Bonde do recalque foi o apelido que a autora Glória Perezdeu a uma turminha no Twitter para revidar as críticas diárias que recebia sobre sua novela. A acusação de que existia uma campanha deliberada contra “Salve Jorge” – em que até sugeriu que havia gente recebendo dinheiro para falar mal da trama – mostra que a aproximação com o público tem dois lados: pode aproximar ou afastar. Bloquear perfis que criticam e retuitar apenas os que elogiam talvez tenha sido uma forma nada amistosa de lidar com a situação. Pelo contrário. A meu ver, gerou antipatia e só alimentou ainda mais o bonde do recalque.

Mas é inegável que até as críticas geraram ruído e repercussão para a novela. “Salve Jorge” sobreviveu do que repercutiu. Thammy Gretchen dançando a “Conga”, travestis traficados, as surras que Wanda levou, a seringada no elevador, o wi-fi na caverna, viagens de jatinho à Turquia, o “cabelo bipolar” de Morena, a igreja 24 horas, os personagens que sumiram, bebês dentro da bolsa, português falado na Turquia, a repetição de elenco e estilo, e o próprio bonde do recalque, só serviram para chamar a atenção do público para uma trama que capengou na audiência em seu início e demorou para engrenar.

Salve Jorge” chega ao seu fim com a pecha de “menor média no Ibope entre as tramas das nove da Globo”: 34 pontos (perdendo para “Passione” 35, “Insensato Coração” 36, “Fina Estampa” e “Avenida Brasil”, 39). Mas a audiência não é um fato isolado. A novela estreou em uma época muito ruim, com Horário Político, Horário de Verão, festas de fim de ano, feriadões. E não só a novela das nove, mas todo o horário nobre sofreu uma queda vertiginosa na audiência no período, em todas as emissoras. Não por acaso, a trama das sete (“Guerra dos Sexos”) e a das seis (“Lado a Lado”) também amargaram índices baixos. E estamos falando de Ibope na Grande São Paulo (o que interessa ao mercado publicitário). Em outras praças, e em outros mecanismos de medição, a audiência foi mais representativa.

E mais uma vez Glória fisgou seu público com tipos bem populares (Maria Vanúbia/Roberta Rodrigues PIPIPIPIPI que o diga) e temas de interesse social. Adoção ilegal, alienação parental e tráfico de humanos (mulheres, travestis, bebês) estiveram na pauta durante os sete meses da novela: o grande mérito de “Salve Jorge”, levar ao conhecimento do público assuntos tão sérios. Já estamos acostumados às campanhas sociais de Glória em seus folhetins, sempre pertinentes e interessantes. E também acostumados às culturas exóticas de países distantes, com personagens, dancinhas e bordões, pitorescos ou chatos. A repetição de estilo e elenco foi uma das maiores reclamações do início da novela. Assim como o grande número de personagens – muitos se perderam no caminho e sumiram sem maiores explicações.

Antes mesmo da estreia, Glória Perez enfrentou um dragão com sua novela: a escalação de Nanda Costa para viver a protagonista Morena foi criticada. A atriz, sempre coadjuvante na TV, já se destacara no cinema, mas estranhou os desavisados. Pois todos tiveram que engolir Morena. Nanda fez seu papel direitinho e mostrou a segurança das protagonistas até nas cenas que mais lhe exigiam. Em contrapartida, o protagonista masculino ganhou uma alcunha que lhe caiu como uma luva: PasThéo. Mais culpa do texto e do perfil do personagem do que da capacidade do ator (Rodrigo Lombardi). Mas viver um protagonista masculino em uma novela de Glória Perez não é tarefa nada fácil. Que o diga Márcio Garcia em “Caminho das Índias”.

Salve Jorge” reservou ótimos momentos para Giovanna Antonelli e Carolina Dieckmann – quase elevadas à categoria de protagonistas da novela, ante a rejeição inicial sobre Morena/Nanda Costa. Antonelli brilhou tanto que sua delegada Donelô já é um de seus melhores papeis em TV. Brilharam também Dira Paes e Totia Meirelles. A mãe-coragem Lucimar e a vilã Wanda foram uma atração à parte dentro da trama. Dira teve cenas ótimas, responsável por alguns dos momentos de maior carga dramática na história. Wanda foi o destaque do núcleo dos vilões, a única com alguma humanidade e que fugiu do estereótipo caricato de Lívia Marine ou Irina (as robóticas Cláudia Raia e Vera Fischer).

Thammy “Gretchen” Miranda chamou a atenção positivamente. Sem levantar bandeira, a lésbica Jô esteve lá quietinha em sua mesa boa parte do tempo, cumprindo sua função profissional. Ponto para a autora, que não teve a pretensão de discutir a homossexualidade de Jô. Glória preferiu outro viés, mais condizente com a trama central da novela: gays e travestis foram incluídos no grupo dos traficados. Pena que os gays apresentados eram bem caricatos e estereotipados. Diferente das travestis, que ganharam uma caracterização mais realista.

Do núcleo dos turcos, entre vários personagens desinteressantes, salvou-se a trama da família de Mustafá (Antônio Calloni), com o drama de Aisha (Dany Moreno), que passou a novela inteira atrás de suas origens e, ao final, descobriu que havia sido vítima do tráfico de recém-nascidos. Mas foi difícil de engolir a resistência de Aisha em aceitar a mãe biológica (por ela ser uma humilde moradora do Morro do Alemão) após ter caído no papo de Wanda e aceitado ela como sua mãe, mesmo Wanda estando presa. Preconceito social de Aisha, ou uma situação, que ficou incoerente, criada apenas para atender o roteiro?

Independente de esta ter sido mais uma das várias incongruências de “Salve Jorge”, a novela entrou para a história como a que teve mais furos de roteiro. E o bonde do recalque foi implacável com Glória Perez, nada passou despercebido. O auge ocorreu na sequência em que Raquel (Ana Beatriz Nogueira) é assassinada: ela entra no elevador do hotel para melhorar o sinal do celular (oi?) e Lívia Marine mete-lhe uma seringa envenenada no pescoço dentro do elevador – ignorando o fato de que qualquer elevador possui câmeras de segurança.

Do remendo, o que foi o pior? A autora ter ido ao Twitter tentar se explicar, ou a explicação em si? “Livia Marine tinha contatos no hotel”. FIM. Outra justificativa muito usada pela autora foi a de que novela é ficção, não tem a obrigação de mostrar a realidade. ”Licença poética! É preciso voar!” (com direito a clipe do “Pavão Misterioso” de Ednardo). Coerência para quê, diante de tal argumento?

Glória está certa, o folhetim é um estilo que permite vôos altos. Mas, pelo menos 48 anos separam o folhetim de Glória Perez dos folhetins de outra Glória, a Magadan, novelista que usava e abusava de tramas rocambolescas e fantasiosas em países exóticos, na década de 1960. A telenovela no Brasil é o que é hoje porque se sofisticou a tal ponto (como narrativa e programa televisivo de entretenimento) que seu público conhece e reconhece estilos e propostas. “Salve Jorge” foi vendida como uma trama realista, que tratava de um tema urgente, difícil e alarmante: o tráfico de humanos – mais uma novela de Glória Perez calcada em um tema social. Mas, como embarcar em uma proposta tida como realista que acabou tendo um desenvolvimento muitas vezes fantasioso, com vilões caricatos, em que a autora pedia ao seu público que voasse com ela? “Salve Jorge” não era realismo fantástico (“Saramandaia”, “A Indomada”), ou uma fantasia (“Cordel Encantado”). O tema tráfico humano merecia um desenrolar mais realista, à altura de sua problemática e urgência.

A autora pecou pelas incoerências e furos de roteiro enquanto a direção derrapou em várias sequências, com direito a erros de continuidade (o “cabelo bipolar da Morena”, por exemplo, uma hora liso, outra cacheado). Ficou a impressão de que a direção preferiu fechar os olhos a esses “detalhes” e dar vazão ao lema da autora: “é preciso voar”. Só que o público não gosta de ser subestimado.

A televisão sempre acompanhou a evolução social e tecnológica. O futuro da telenovela depende disso. Algumas produções já compreenderam esse contexto. Não se pode mais ignorar que falhas passem despercebidas. Antigamente, se uma falha fosse notada, o máximo que se podia fazer era escrever uma carta para a redação de uma revista. Hoje em dia, milhares de telespectadores assistem à novela e comentam juntos, no momento em que ela vai ao ar. Nada passa despercebido e qualquer falha vira alvo de reclamação ou troll. Independente se paga-se para isso ou não. O bonde do recalque, parece, vai continuar de olho.

 

Nilson Xavier

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