Único tetra, Paulistano superou Timão, crise e suspeita de entrega

Campeão paulista de 1916 a 19, feito que o Santos pode alcançar 94 anos depois, clube guarda detalhes da conquista, cheia de elementos atuais

Tarde de domingo, chuva, dificuldade para os torcedores chegarem ao estádio, arquibancadas lotadas, suspeita de entrega de jogo, e volta por cima após crise durante o campeonato. O cenário poderia bem descrever competições recentes do futebol brasileiro, mas remete ao longínquo ano de 1919. Mais exatamente a 21 de dezembro de 1919. Dia em que o Club Athletico Paulistano conquistou o tetracampeonato paulista, feito jamais repetido, e atual sonho do Santos, que pode alcançá-lo se vencer o Corinthians após as finais dos próximos domingos.

paulistano Campeonato Paulista de 1918 (Foto: Divulgação)A formação do Paulistano campeã em 1918: craques do amadorismo (Foto: Divulgação)

O Paulistano não é mais um clube de futebol profissional, mas abriga milhares de sócios em suas piscinas e quadras num bairro nobre da cidade de São Paulo. E em uma das salas do enorme terreno conta sua história com detalhes. Campeã em 1916, 17 e 18, a equipe também festejou seu quarto título seguido com vitória sobre o Corinthians. As taças Jockey Club (pelas duas primeiras conquistas) e Cidade de São Paulo (pelas seguintes) residem na sala da presidência.

Corriam vários boatos acerca da atitude do Corinthians no encontro anunciado. Desconheciam-se os divulgadores dos boatos, segundo os quais o antigo campeão da Liga pretendia entregar a partida”
relato de jornal da época, falando que o Timão poderia ‘entregar’ o jogo para o Paulistano. Para complicar o Palestra Itália?

Sem televisão ou internet, os jornais da época esmiuçavam cada detalhe dos embates. O “boletim sportivo da Gazeta” do dia seguinte, por exemplo, descreve os hoje inimagináveis 27 chutes a gol do primeiro tempo, que terminou com vitória do Paulistano por 2 a 0 sobre o Corinthians.

Em 1919, primeiro entraram os times no campo do Jardim América, sede construída dois anos antes, e que até hoje abriga o clube. O último a chegar foi o árbitro Demosthenes de Syllos, às 16h02. Encontrou um gramado castigado pelo jogo anterior, das chamadas “segundas equipes”, e também pelo temporal, que há 94 anos insiste em fazer companhia aos paulistanos.

Zito, de cabeça, abriu o placar. E o astro Friedenreich faria, ainda no primeiro tempo, o segundo gol, descrito assim na “Gazeta”, com acentos respeitando à gramática da época: “Friedenreich, recebendo bom passe de Zito, manda um belissimo kick em goal, rasteiro, de uns 30 metros de distancia, fazendo assim o segundo goal do dia, ás 4,38”.

Garcia, considerado o melhor jogador do Corinthians em campo, diminuiu na etapa final, mas Friedenreich e Agnello colocaram fim às pretensões alvinegras, e garantiram o tetra. Arnaldo; Orlando e Carlito; Sergio, Rubens e Benedicto; Agnello, Mario, Friedenreich, Zito e Cassiano. Esses foram os heróis que ostentam até hoje a conquista que Neymar e companhia tentarão igualar a partir de domingo. Uma conquista que contou com um elemento muito comentado nos últimos anos no futebol brasileiro: a suspeita de que o adversário, já sem chances de ser campeão, entregaria o jogo ao Paulistano.

Como se sabe na semana anterior, corriam varios boatos acerca da attidude do Corinthians no encontro annunciado. Desconheciam-se os divulgadores dos boatos, segundo os quaes o antigo campeão da Liga pretendia entregar a partida”, relatou o jornal “ O Estado de S. Paulo” após o tetracampeonato. O clube alvinegro terminou o campeonato na terceira colocação, com 26 pontos, atrás de Paulistano (30) e Palestra Itália (29). Nenhuma publicação, entretanto, explica os motivos dos boatos, se já seria em razão de uma rivalidade com o Palestra, futuro Palmeiras, que dependia de uma derrota do Paulistano para levantar o troféu do torneio organizado pela APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos).

A derrota por 4 a 1 foi a maior da história de nove anos do Corinthians, o que fomentou ainda mais a desconfiança, mas os jornais foram veementes em defender a postura da equipe. Sorte dos jornalistas que ainda não havia redes sociais para acusá-los de “imprensa corintiana”… Eles apontaram a escalação de Neco, destaque do time que estava doente, e a pressão para tentar o empate no segundo tempo, como provas de que levaram a sério a decisão.

Na comemoração do título, nada de declarações provocativas. Um exemplo de cordialidade. O presidente corintiano Guido Giacominelli e o capitão Amilcar foram ao vestiário do Paulistano, elegantemente chamado de “aposentos”, e parabenizaram os campeões. Amilcar recebeu uma taça de champanhe, e o Alvinegro foi saudado com um “hurrah!”.

 Vista aérea atual do Paulistano (Foto: Arquivo Pessoal)Vista aérea atual do Paulistano: clube fica em área valorizada de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

Bondes: os vilões da época

A cidade de São Paulo ainda estava longe de sofrer com o insuportável trânsito atual, mas chegar ao estádio já era um fardo. E a grande vilã do dia do tetra foi a Light, empresa responsável pelos bondes da capital em 1919. Os veículos sairiam do Viaduto do Chá em direção ao fim da Rua Augusta, próximo ao Paulistano. Mas o ritmo lento, a superlotação e os intervalos enormes entre um carro e outro levaram os jornais a chamarem os bondes de “pacientometros”. Veículos que mediam a paciência dos torcedores.

A paciência não durou muito. Todos os relatos indicam que famílias inteiras desceram dos veículos na Avenida Paulista, e caminharam por toda a Rua Augusta. Os termos utilizados eram um espetáculo à parte. Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, a Light submeteu seus passageiros a um “raid de pedestranismo effectuado justamente na ocasião em que o Padre Eterno impiedosamente abria  todas as torneiras do céu”. Tudo isso para dizer que os cidadãos andaram debaixo de chuva intensa.

MOSAICO - Club Athletico Paulistano  (Foto: Reprodução)Times, taças e a antiga sede do Paulistano: sucesso no amadorismo (Foto: Reprodução)

Crise, concentração e volta por cima

Desde que o mundo é mundo, há crises e medidas enérgicas para combatê-las no futebol. Uma semana depois, a sede do Paulistano recebia damas, cavalheiros e orquestra para festejar o tetra. O auge seria uma queima de fogos às 22h. Chance para o presidente, ou melhor, “sportsmen” Antonio Prado Junior falar sobre a temporada.

Uma temporada cheia. O campeonato de 1918 só havia terminado no início de 19, em razão do que ficou conhecida como gripe espanhola, uma epidemia originada pelo vírus H1N1. Em junho teve início o novo torneio, e na sexta rodada uma derrota dos tricampeões para o São Bento provocou medidas enérgicas.

– Reuni todos os rapazes do primeiro quadro, e lembramos-lhes que o clube, na posição em que se achava, não poderia desmoralizar-se assim dessa maneira. Foi então que todos, com grande fé, resolveram reagir, obedecendo a outro programa mais eficaz – disse o presidente, talvez um dos inspiradores do são-paulino Juvenal Juvêncio.

Em seguida, Prado explicou detalhadamente o “programa”, que hoje seria chamado de concentração rigorosíssima. Os jogadores passaram a dormir na sede do clube. Religiosamente, deitavam-se às 22h e acordavam às 6h. O primeiro passo era a ginástica sueca, método desenvolvido no século 18, seguido de exercícios respiratórios.

– Depois passeavam em marcha regular, acelerada, e corriam a volta do campo nos bicos dos pés. Além disso, havia uma corrida de velocidade de cem metros. Voltavam, depois disso, à ginástica sueca. Uma vez por semana faziam uma marcha regular de soldado pelo Jardim América – completou o rigoroso presidente, que ao menos não precisou garantir o técnico, figura inexistente na fase amadora do futebol.

Todos os jogadores daquele time já faleceram. A história está viva. À espera de novos integrantes. De novos tetracampeões.

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