Renato Maurício Prado aproveita a saudade que sente do falecido pai para criticar a gestão de Patrícia Amorim á frente do Flamengo

Quem me acompanha há algum tempo sabe da saudade que sinto do meu pai — falecido há 20 anos, mas até hoje bem vivo em meus sonhos, pensamentos e no belo exemplo de honestidade e ética que deixou. Foi o “velho” que me fez gostar de esporte, praticá-lo em várias modalidades (com muito esforço e pouco talento, admito) e, acima de tudo, me ajudou a entendê-lo como lição de vida.
Lembro-me até hoje da primeira vez que fomos ao Maracanã, assistir a um jogo entre o Flamengo e o São Paulo, pelo saudoso torneio Rio-São Paulo. Ao seu lado, vi também o rubro-negro ganhar o Campeonato Carioca de 1963, ao empatar em 0 a 0, com o Fluminense, num Maracanã abarrotado de gente.

Juntos estávamos no dia em que, com o “Maior do Mundo” botando gente pelo ladrão, Pelé marcou o gol da sofrida vitória por 1 a 0, sobre o Paraguai, garantindo a classificação para a Copa de 70, no México, onde o Brasil conquistaria o tri.

Mas nem tudo era alegria. Até hoje morro de rir, sozinho, lembrando-me das voltas do estádio, a bordo de nosso fusquinha, ouvindo, no rádio, os comentários do João Saldanha e do Ruy Porto. Naqueles tempos (final dos anos 70), como apaixonado rubro-negro que era, meu pai sofria. E disparava sua metralhadora giratória com fúria:

— Esses jogadores não servem nem pro time do leprosário. Bando de pernas-de-pau! Deviam jogar com bolas com guizo. São todos cegos! — rosnava, enquanto o “João sem medo” e o “Comentarista de classe, para todas as classes” tentavam explicar, pelas ondas eletromagnéticas, os motivos de mais uma derrota do Fla.

Em tempo: antes que parentes de doentes de hanseníase ou de deficientes visuais impliquem com os termos do “velho”, peço desculpas por ele, recordando que aqueles eram tempos politicamente incorretos. E não havia em suas palavras nada além da revolta com o elenco rubro-negro que era mesmo horroroso. Ruim de doer.

Pior: havia naquela época, no Rio, um timaço: o Botafogo de Manga, Leônidas, Carlos Roberto, Gérson, Rogério, Jairzinho e Paulo César. Uma máquina de jogar bola. E até o Bangu alinhava uma equipe de respeito, com Ubirajara, Mário Tito, Jaime, Ocimar, Paulo Borges (um tremendo ponta-direita!) Cabralzinho, Ladeira e Aladim. Como o Fla ia com “sumidades” como Marco Aurélio, Onça, Tinteiro, Buião, Fio Maravilha, Michila, Néviton, Oswaldo “Ponte-aérea” e coisa e tal, já viu, né?

— Meu filho, eu sou do tempo em que o Flamengo era uma seleção! Tri carioca com Domingos da Guia na zaga, Biguá, Bria e Jaime, Zizinho, Pirilo e Vevé! Naquela época, o Flamengo jogava com 11 “Dovais” — desabafava, com justificável nostalgia.

Explicação: o argentino Narciso Doval, o “Diabo louro” era o único jogador a quem papai livrava a cara. Até porque era mesmo bom de bola. E eu ficava matutando: onze “Dovais”? Uau!

Mas a esta altura algum leitor pode estar se perguntando: por que diabos lembrar disso hoje? Simples. Pelo segundo ano (em apenas três!), o Flamengo luta contra o rebaixamento. E quando olho a escalação atual, não há como deixar de lembrar do meu “velho” e de sua ira santa.

Tive a alegria de acompanhar, já como repórter, um supertime do Fla. Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Inúmeras vezes campeão estadual, tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores e do Mundial interclubes. Recordo sempre com emoção o dia em que, após mais uma conquista, liguei do estádio pra casa, só pra dizer:

— Pai, esse time é melhor até do que aquele que você sonhava com 11 “Dovais”…

Feliz, ele concordou. O problema é tentar convencer os jovens rubro-negros de hoje (minha filha, entre eles) que essa coisa medonha que se arrasta pelo gramado no atual campeonato é o Flamengo…

Há quem considere esse o pior time da história do “Mais Querido”. Não vou tão longe. Já vi coisas mais horripilantes em outros tempos, como os de agora, nada gloriosos. Mas é assustador (e desanimador) constatar que a atual gestão conseguiu a proeza de gastar muitos milhões nos últimos três anos sem obter resultados. Ao contrário, amargando dois Brasileiros fugindo do rebaixamento.

E não dá nem pra dizer que há, no atual futebol brasileiro, equipes poderosíssimas, imbatíveis. Nem o Santos de Neymar e Ganso, vencedor da Libertadores de 2011, nem o Corinthians, de Tite, campeão brasileiro no ano passado e do continente este ano, e tampouco o Fluminense de Fred, Deco e Cia., prestes a conquistar o segundo Brasileiro em apenas três anos, podem ser comparados aos melhores e inesquecíveis esquadrões da história do futebol brasileiro. São apenas bons times.

O que significa dizer que pra passar dois anos em três na rabeira do Brasileirão (e ganhando apenas um Carioca) é preciso ser muito incompetente. Como o Flamengo de Patrícia Amorim vem sendo.

— Desliga a TV do Céu, “velho”. Senão, São Pedro vai acabar te dando cartão vermelho…

Coluna redigida pelo jornalista Renato Maurício Prado para o jornal carioca O GLOBO

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